domingo, 6 de março de 2016

Sentimento do mundo-eu

Não tenho palavras para o que não há de ser dito.
Sentimentos?
Ainda os guardo.
Todos presentes nas pinturas que não vou pintar,
nas fotos digitais que não vou revelar,
nas palavras que não vou ouvir,
no último toque que não vou sentir,
nos poemas que não vou escrever,
nas
batidas
que
não
vão
bater.
Sentimentos, ainda vos guardo.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Partir

Fui embora
E sinto teu cheiro na minha camisa
E em todas as flores da floresta de concreto que é essa cidade
E em todas as rosas de todas as cores
E em todos os girassois
E na lua
Que brilha enquanto sinto teu cheiro na minha camisa

Embora - advérbio de concessão 
Ir embora é querer ficar

domingo, 31 de janeiro de 2016

Restos

Saudade:
Tudo que restou dos amores que tive.
Uma ou duas mágoas
Que pareciam desmanchar qualquer memória que pudesse causar saudade.
Cinco ou seis arrependimentos
Que aumentam a saudade e me culpam pela saudade não ser ansiedade.
(a ansiedade se transformou em saudade
uma tão ligada ao futuro e ao desejo
outra tão ligada ao passado e ao desejo
um desejo tão longe do outro
o alcançável e o inalcançável as distinguem
o tempo também)
Centenas de poemas sobre centenas de sentimentos (ou talvez um só) que já não sinto
Que já não sei como sentir
Que já não sei o que é sentir. (mas ainda sinto saudade)
Aquela memória, um retrato, o nome citado pela vó no almoço de domingo (talvez numa confusão desastrosa que vá me gerar uma pequena briga), aquele resto - saudade.
Aquele resto de saudade.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

dezoito anos

A barra da saia da mamãe era o único lugar que eu gostava de estar. Até hoje vivo por lá. Aos dezoito anos continuo fugindo da exposição, evitando o mundo adulto, correndo dos problemas - e é isso que eu sei fazer, correr. Com o amadurecimento eu encontrei um paliativo: ignorar. E foi assim por muito tempo. Passei a adolescência ignorando. Ignorava os problemas, até mesmo as soluções que me eram apresentadas. Parecia não me importar - e por um tempo eu realmente não me importei. Vivia atrás do muro (sim, o do Pink Floyd). Eu evitava a vida, eu adiava a vida como alguém adia uma dieta - resolvo meus problemas na próxima semana era o meu mantra semanal. A responsabilidade era a cicatriz que eu não queria ter. Eu não queria ser adulto - quando adulto, mas era tarde. Toda a infância eu esperei pelos dezoito anos, pela liberdade. Esta que eu jurava ser sobre álcool, morar sozinho, trabalhar, estudar longe e ser independente. Errei muito sobre a liberdade. Liberdade que, agora, me fez refém da vida, que me fará encarar a vida de frente. Olho no olho para vivê-la. Sorrindo quando for preciso, chorando quando for possível.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Descrição

Precisei recorrer ao álbum de fotografias
E retomar tua memória
Uma lembrança de um dia qualquer
Onde teus lábios
Aqueles lábios que beijam poemas
Abriam levemente
E ao abrir
Forçavam tuas bochechas
Que ao serem pressionadas
Forçavam tuas pálpebras
E aquela mágica em forma de processo muscular
Cerrava teu olhar
E fazia com que teus olhos sorrissem

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

poema existencialista sem número

Existo
Pois em minhas recordações
Durante toda a vida
Nunca deixei de existir

Sou
Não somente a ideia de ser
Mas também a ideia de não ser

Vivo
Porque esqueci-me de morrer
Porque nunca lembrei-me de ter morrido

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

poema sem título número 2

Meu sorriso é o reflexo dos meus olhos nos teus olhos Que refletem meus olhos

Por fim, é tudo a tua imagem
À tua imagem